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Cientistas brasileiros criam neurônios em laboratório para investigar o autismo

Em uma placa de vidro na Fiocruz Bahia, cientistas cultivam neurônios humanos vivos. O mais surpreendente é que eles foram criados a partir do sangue de pacientes brasileiros com Transtorno do Espectro Autista (TEA).

A pesquisa, que une a bancada do laboratório à prática médica, é liderada pelo Dr. Bruno Solano, médico pela UFBA, mestre pela Fiocruz e doutor em Patologia. Pesquisador da Fiocruz e do Instituto D’Or (IDOR). Ele usa a reprogramação celular para escrever um novo capítulo no estudo do neurodesenvolvimento no país.

BIOTECNOLOGIA - Exames tradicionais, como a ressonância magnética, analisam o cérebro em escala macroscópica (anatomia e fluxo sanguíneo). A biotecnologia vai além. "A grande vantagem é que esses neurônios carregam o DNA do paciente", explica Solano. "A ressonância não mostra, célula por célula, como aquele neurônio se desenvolveu, como dispara sinais elétricos, como faz sinapses ou como responde a uma droga", explica.

A equipe utiliza as chamadas células-tronco pluripotentes induzidas (iPSCs). O processo funciona da seguinte forma:

Coleta: Recolhe-se sangue periférico ou fibroblastos da pele do paciente.

Reprogramação: As células são induzidas a voltar ao estado de células-tronco.

Diferenciação: Estímulos químicos transformam essas células em neurônios ou em organoides cerebrais (estruturas 3D conhecidas como "minicérebros").

Um marco recente foi publicado na revista Human Cell, onde a equipe gerou clones de iPSCs de pacientes com mutações no gene SCN2A, peça-chave na propagação de impulsos elétricos cerebrais.

DIVERSIDADE - Estudar essas mutações no Brasil tem valor estratégico. A maioria dos bancos genéticos mundiais reflete populações europeias ou norte-americanas. Para um país altamente miscigenado, isso é um problema. "Se a medicina de precisão for construída apenas com dados de outras regiões, ela deixa de fora a diversidade humana", alerta Solano. Uma variante genética considerada perigosa em um banco internacional pode ser inofensiva no contexto genético brasileiro, ou vice-versa. Os modelos nacionais garantem também soberania científica.

 

"O SUS vai incorporar os frutos desse conhecimento a partir de melhores critérios para testes genéticos, aconselhamento qualificado e terapias mais direcionadas"


FIM DO “ERRO E ACERTO” - Os minicérebros simulam as fases iniciais do cérebro humano. Eles funcionam como uma plataforma aceleradora de tratamentos. Em vez de o paciente testar medicamentos via "erro e acerto", cientistas testam as substâncias diretamente nas células em laboratório.

Apesar do avanço, Solano enfatiza que o diagnóstico do TEA continuará clínico e comportamental. A tecnologia também não visa "curar" o autismo via edição gênica (CRISPR), mas focar em condições graves associadas, como epilepsias refratárias e perda de autonomia.

Por ser um processo caro e complexo, a tecnologia não será um exame de rotina no SUS, ou seja, o impacto na saúde pública será indireto. "O SUS vai incorporar os frutos desse conhecimento a partir de melhores critérios para testes genéticos, aconselhamento qualificado e terapias mais direcionadas", conclui o médico.

A plataforma já abre caminhos para o estudo de outras doenças, como o Alzheimer e a Esclerose Lateral Amiotrófica (ELA).