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Como o neurodesign melhora a acessibilidade sensorial

A experiência de um espaço vai muito além do que os olhos podem ver. Em clínicas, hospitais e espaços públicos, o design de interiores, a iluminação, a acústica e a circulação impactam diretamente o bem-estar de pacientes com hipersensibilidade sensorial ou limitações motoras complexas. Projetar para essa diversidade exige uma mudança profunda de perspectiva no mercado arquitetônico.

A arquiteta e especialista em neurociência aplicada à arquitetura, Priscilla Bencke, destaca que um dos principais equívocos da profissão ainda é a centralidade na estética visual. "Um dos principais erros ainda é projetarmos espaços predominantemente a partir daquilo que enxergamos. A arquitetura tem uma tradição muito visual e, muitas vezes, a discussão acaba concentrada em estética, cores, formas e materiais. Mas a nossa experiência ambiental é multissensorial", pontua.

Ela explica que variáveis como acústica, temperatura, odores e iluminação determinam o nível de conforto ou estresse de quem frequenta o local. "Um ambiente pode ser visualmente muito bonito e, ao mesmo tempo, ter reverberação excessiva, cheiro muito intenso, iluminação ofuscante, temperatura desconfortável, excesso de estímulos visuais ou nenhuma possibilidade de afastamento e privacidade", alerta Priscilla.

CONSCIÊNCIA SENSORIAL - Outro ponto crucial é abandonar a ideia de que existe um padrão único de percepção espacial. Para Priscilla Bencke, projetar para um suposto “usuário médio” ignora a diversidade de características sensoriais, cognitivas e físicas das pessoas. Por isso, a pergunta central do projeto deve mudar de "como esse ambiente deve ser?" para "quem são as diferentes pessoas que irão experimentar esse ambiente e do que elas precisam?".

Embora soluções como salas de descompressão tenham ganhado espaço em projetos modernos, Priscilla enfatiza que elas não resolvem isoladamente os problemas de um projeto inadequado. "A sala de descompressão é extremamente válida, mas ela não pode funcionar como uma compensação para um edifício inteiro sensorialmente hostil. O ideal é que todo o ambiente seja projetado com maior consciência sensorial, e que essa sala funcione como uma possibilidade adicional de autorregulação", defende a especialista.

CUSTO - Engana-se quem pensa que incorporar o neurodesign e a acessibilidade sensorial encarece obrigatoriamente uma obra. Grande parte das melhorias decorre de escolhas estratégicas feitas no início do planejamento, como a organização do layout, setorização, contraste adequado, circulação intuitiva e posicionamento de áreas silenciosas.

Além disso, Priscilla alerta para o impacto financeiro de um projeto negligente: "Precisamos considerar o custo de um ambiente inadequado, incluindo reformas posteriores, necessidade de adaptações, desconforto dos usuários, redução da permanência e, dependendo do contexto, até perda de autonomia. Eu gosto de pensar que projetar para a diversidade não significa necessariamente acrescentar coisas ao projeto. Muitas vezes significa justamente retirar excessos, organizar melhor os estímulos e fazer escolhas mais conscientes”, observa.