Terapia CAR-T transforma a oncologia no Brasil, mas enfrenta desafios de acesso e custos
A terapia com células CAR-T representa um dos avanços mais transformadores da oncologia moderna, conforme aponta o artigo científico publicado na revista Frontiers in Hematology (Guerino-Cunha et al., 2026). O tratamento reprograma geneticamente as células de defesa do próprio paciente para reconhecer e destruir tumores agressivos, como leucemias e linfomas de células B. Apesar de oferecer altas taxas de remissão, ultrapassando 80% em casos graves de leucemia linfoblástica aguda em crianças e jovens, o estudo alerta que a expansão dessa tecnologia no Brasil enfrenta grandes gargalos econômicos, regulatórios e estruturais.
BARREIRA FINANCEIRA - Segundo os autores do estudo, o Brasil é o único país da América Latina com terapias CAR-T registradas comercialmente pela Anvisa, incluindo produtos como Kymriah, Yescarta, Tecartus e Carvykti. No entanto, os dados levantados mostram que o custo de fabricação pode atingir US$ 500 mil (mais de R$ 2,5 milhões) por paciente, sem contar custos com internação e manejo de efeitos colaterais graves, como a síndrome de liberação de citocinas e complicações neurológicas. Essa barreira financeira gera uma forte disparidade entre o Sistema Único de Saúde (SUS) e o setor privado. Na saúde suplementar, a falta de incorporação no rol de coberturas obrigatórias da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS) leva a frequentes negativas de custeio por operadoras. A consequência destacada no artigo é o salto na judicialização: a Justiça brasileira tem decidido favoravelmente aos pacientes em cerca de 96% das ações. Já no SUS, a burocracia e os prazos de até 150 dias para a infusão fazem com que muitos doentes tenham seus problemas agravados antes de receber a terapia.
SAÍDAS - Para superar esses entraves, o levantamento sugere que o Brasil deva investir em produção nacional e parcerias estratégicas. A colaboração entre a Fiocruz e a organização norte-americana Caring Cross busca produzir terapias no país para o SUS a um custo reduzido de cerca de US$35 mil por dose. Projetos do INCA com o Children's Hospital of Philadelphia e pesquisas de centros como a USP de Ribeirão Preto e o Instituto Butantan também impulsionam ensaios clínicos locais. Os especialistas do painel analítico concluem que garantir o acesso sustentável exige diretrizes clínicas unificadas, capacitação de equipes multidisciplinares e novos modelos de pagamento baseados em resultados. Apenas alinhando inovação e equidade o país conseguirá democratizar esse tratamento transformador, refletem os autores do estudo.
